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Até hoje não consegui entender
direito a confusão daquele três de Setembro de
98, quando fui atingida por uma bala perdida! Lembro apenas
que fui, repentinamente, jogada ao chão sem chances
de defesa, sem sentir o meu corpo e sem poder correr atrás
de minhas outras amigas da escola que gritavam por mim. Só
fui descobrir o que havia acontecido no dia seguinte, no leito
da UTI do Hospital Salgado Filho.
Naquele dia, era a primeira vez que meus pais permitiam a
minha saída sem eles, eu e minha amiga saímos
da escola com o plano de passar na papelaria e fazer o trabalho
na casa dela, só que infelizmente, fizemos o mesmo
caminho escolhido pelos assaltantes da joalheria “Tzipora”
que fugiam perseguidos pelos seguranças contratados
pelos lojistas do bairro. A rua estava movimentada de crianças
saindo de vários colégios, assim como eu.
Foi tudo muito rápido! Num corre-corre e sem ter tempo
de perceber o perigo, fui atingida por uma bala perdida pensando
que o barulho fosse de bombinha de festa junina. De repente
todos os meus sonhos ficaram distantes! Fui brutalmente atingida
física e emocionalmente, numa fração
de segundos aquela criança sorridente de momentos atrás
estava imóvel no chão com os olhos arregalados
e o semblante assustado. Essa cena foi vista pelo Brasil inteiro
e chocou o país. Nunca mais nos esqueceremos dela.
Fui amparada por várias pessoas até a chegada
de uma ambulância, que primeiramente me levou ao Hospital
Souza Aguiar. Como o equipamento que precisava estava com
defeito, fui transferida para o Hospital Salgado Filho, onde
fui muito bem atendida e operada pela equipe brilhante de
neurologistas. Enfrentei muito bem a cirurgia mas, infelizmente,
a bala havia atingido a minha medula deixando-me tetraplégica.
Minha vida, bem como a de meus pais, familiares e meus amigos
virou de cabeça para baixo. Mesmo assim eu acreditava
que poderia voltar o quanto antes para o colégio. Que
nada...
Um Mês depois do acidente
Um mês depois do acidente, saí do hospital para
a ABBR - Associação Brasileira Beneficente de
Reabilitação, onde permaneci interna durante
um ano juntamente com a minha mãe. Lá eu me
sentia segura e protegida, havia uma infra-estrutura e o corpo
médico era competente e especializado. Na ABBR adaptei-me
à nova vida presa à uma cadeira de rodas. Até
hoje continuo ligada a eles, não só pelo acompanhamento
médico da Dra. Ana Luiza, autoridade máxima
em raquimedular do Rio de Janeiro a quem conheci lá,
como também pela amizade que tenho com todos.
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